COP-16

 

COP-16

Protestos nas ruas contra o mercado climático

Data: 10/12/2010

Por: Redação TN / Diana Cariboni, IPS

 

Os atalhos oferecidos pelo sistema da Organização das Nações Unidas às empresas, para que lucrem com as estratégias contra o aquecimento global, foram alvo de duras críticas no Dia de Ação Mundial pela Justiça Climática. Duas manifestações distintas, com alguns milhares de pessoas, marcaram o dia 7/12, no trecho final da cúpula sobre mudança climática que acontece até amanhã neste balneário mexicano. Palavras de ordem referentes ao México, “país petroleiro, o povo sem dinheiro”, focou a causa principal do aquecimento do planeta: a queima de combustíveis fósseis, assunto quase marginalizado das discussões da 16ª Conferência das Partes (COP-16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

 

A manhã começou com uma marcha pelo centro da cidade por parte de movimentos camponeses e altermundistas deste país e da América Latina, reunidos no Diálogo Climático-Espaço Mexicano. Acompanhados por ativistas da Oxfam e da Aliança Social Continental, percorreram a Avenida López Portillo até a sede da prefeitura. Os esquemas de lucro, como a venda de direitos para lançar dióxido de carbono na atmosfera no chamado “mercado de carbono”, poderiam ser ampliados em Cancún.

 

Há pré-acordo para incluir a captura e o armazenamento de carbono e a proposta de REDD (Redução das Emissões de Desmatamento das Florestas), discutido pelos países partes da COP 16, poderia incluir incentivos de mercado. “REDD não, REDD não, REDD não”, gritavam os manifestantes.

 

Nas duas marchas, os grupos sindicais e indígenas dominaram em presença e mobilização as organizações ambientalistas. E seus reclamos e lemas foram também muito amplos: desde soberania alimentar até direitos humanos, passando por denúncias contra a administração do conservador Felipe Calderón. “Governo fascista, está em nossa lista”, gritavam. “Deem duro nesse bando que se reuniu em Cancún para escravizar a humanidade e arruinar o planeta”, gritava um mexicano com o rosto parcialmente coberto por uma máscara da corporação de alimentos Nestlé.

 

Em uma posição menos radical, ativistas da Oxfam usavam camisetas nas quais se lia na frente “Cancún pode” e nas costas “Das pequenas sementes de Cancún podem nascer grandes coisas”. O que pode fazer Cancun? “Não apenas restaurar a confiança entre os governo, mas entre os cidadãos”, disse ao TerraViva, durante a marcha, Antonio Hill, encarregado de campanhas e incidência política da Oxfam na América Latina e Caribe.

 

“Depois da decepção da COP-15 no final do ano passado, na capital da Dinamarca, “precisamos mais do que conversações”, acrescentou Hill. “Necessitamos de benefícios concretos, sobretudo para as comunidades mais vulneráveis que já estão sofrendo desastres meteorológicos”, ressaltou.

 

Os governos atrasaram nas medidas para reduzir a contaminação, “mas não atrasaram a mudança climática. Este ano morreram 21 milhões de pessoas, na Colômbia há mais de um milhão vivendo com a água no pescoço, só no dia 6, morreram 120 pessoas por deslizamentos, e as histórias se repetem”, alertou Hill. “Cancún pode entregar um fundo que priorize a adaptação e garantir que ao menos a metade deste dinheiro seja para enfrentar os impactos que já são inevitáveis”, ressaltou.

 

Mas esse fundo, alertam algumas organizações, também poderia ser colonizado pelo setor financeiro e privado. “É claro que os países mais ricos buscam caminhos para fugir de sua obrigação de entregar fundos públicos”, acrescentou Hill.

 

Chama a atenção a “generosidade e presteza para colocar centenas de milhares de milhões de dólares no resgate dos sistemas financeiros”, contra a “tacanhêz” na hora de dispor de dinheiro para enfrentar a mudança climática, disse ao TerraViva o dirigente colombiano Enrique Daza, da Aliança Social Continental. “Aqui estão lutando por cada dólar”, disse sobre a negociação de recursos para a adaptação. Em sua opinião, “há pouco a se esperar da evolução das reuniões internacionais sobre qualquer assunto. A paralisia do sistema multilateral é notável”, acrescentou Daza.

 

Então, como mudar isso? “É preciso uma pressão social forte e é nossa responsabilidade como movimento social despertar essa mobilização”, acrescentou. “Não há justiça nesta negociação”, afirmou uma jovem do Movimento Filipino pela Justiça Climática, que se identificou como Virgi. Para ela, “os Estados Unidos tentam impor-se em muitas coisas. Querem impor que o Banco Mundial administre estes fundos. Não queremos isso, porque no passado financiou energias sujas”.

 

Com canções e instrumentos bolivianos e improvisações de reggae, a maior marcha da Via Camponesa partiu da Avenida Tulum para os arredores da cidade, com a intenção de chegar às portas do Moon Palace, o complexo hoteleiro onde acontece a COP-16. A polícia bloqueou o caminho com obstáculos de metal e dezenas de homens armados e protegidos por coletes e escudos à prova de balas, enquanto um helicóptero sobrevoava a manifestação.

 

Camponeses e indígenas da América Latina e dos Estados Unidos, movimentos mexicanos da esquerda radical e de direitos humanos e representantes de organizações como Amigos da Terra marcharam sob o Sol do meio-dia, cantando e gritando palavras de ordem como “O tempo está acabando e aqui nada acontece”.

 

As palavras da comissária para a Ação Climática da União Europeia, Connie Hedegaard, fizeram soar a resposta na abertura do segmento de alto nível da COP-16. Nos últimos anos, se conseguiu que “os povos de todo o planeta reconhecessem a urgência do desafio da mudança climática. Ao ver as fotos com palmeiras e belas praias, como pensa que os governos serão julgados se partirmos de Cancún com as mãos vazias?”, disse Hedegaard. “Ainda nos restam 72 horas”, acrescentou.

 

Voltar


Caderno de Sustentabilidade



Caderno de Sustentabilidade

Download

Twitter-logo Siga no Twitter!

Facebook_icon Siga no Facebook!

Busca:









Parceiros