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Projeto Encauchados de Vegetais da Amazônia traz trabalho e renda para povos da floresta

Fonte: Luciana Almeida, Iba

Data: 19/08/2008 00:00

“Quando eu imaginaria ter uma casa coberta com telha de borracha? Hoje, eu tenho!” O depoimento da índia Kaxinawá Maria da Graça, 54 anos, moradora da Aldeia Nova Vida, traduz a transformação que ocorre em diferentes comunidades da região amazônica. Em Feijó (AC), distante 378km de Rio Branco, o projeto Encauchados de Vegetais da Amazônia alia técnicas indígenas de fabricação da borracha ao conhecimento científico.

Desenvolvida pelo Pólo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio), o processamento artesanal da borracha foi vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2007, na categoria Região Norte. O método é resultado de pesquisas realizadas pelo professor Francisco Samonek, em conjunto com indígenas e seringueiros da região.

A tecnologia social se baseia na produção de um composto, com a utilização do látex combinado com fibras vegetais, como embaúba e algodoeiro. Os pigmentos e aromas são obtidos de forma natural, extraídos de folhas da anilina, das cascas do jatobá, do breu e da semente de urucum. O látex é pré-vulcanizado (aquecido de forma controlada), com a adição de substâncias naturais coagulantes. Para estabilizar o látex, é usada uma mistura de água com cinzas, recolhidas de fornos, fogões e roçados. O resultado do processo é o chamado “encauchado”.

O projeto alia geração de renda, qualidade de vida e conservação da biodiversidade. Nos galpões, seringueiros, ribeirinhos e indígenas recebem qualificação para fabricar as peças que vão para o mercado. São produzidas mantas, jogos americanos, toalhas de mesa, porta-lápis, embalagens, tapetes, camisetas, bonés e outros acessórios. Ao todo, são mais de 20 produtos. Cada unidade produtiva tem um rendimento médio de R$ 30 mil por mês.

Renda e qualidade - Além das aldeias Kaxinawá e Shanenawá, nas quais o projeto foi iniciado com 11 unidades produtivas, também o povoado de Granja Marathon, em São Francisco do Pará (PA), está sendo atendido.

Mais renda representa mais qualidade de vida para as comunidades e resulta em valorização da cultura local. Só os índios Kaxinawá, por exemplo, utilizam mais de 60 desenhos próprios nos produtos.

“Eles pintam de maneira diferenciada, fazem pigmentos com folhas de bananeiras, jenipapo e pau brasil, sem o uso de etanol. A tinta que eles usam para pintar o corpo é a mesma utilizada para pintar as peças”, explica o professor Samonek.

O seringueiro Raimundo Nonato, 42 anos, morador da reserva extrativista Cazumbá Iracema, em Sena Madureira (AC), a 139km da capital, conta como o projeto modificou a vida da comunidade.

“Quando vendíamos a borracha bruta não ganhávamos quase nada pelo produto. Hoje, com as técnicas que aprendemos, essa mesma matéria tem um valor muito maior no mercado. Saltou de R$ 2,50 para R$ 50 o quilo”.

Para o extrativista, a comunidade se sente mais valorizada.

“Hoje podemos comprar as nossas coisas, com o dinheiro que ganhamos. Além disso, nos alimentamos melhor e ainda ajudamos na preservação da natureza, uma vez que não precisamos mais derrubar árvores para a lavoura e a criação de gado”, ressalta.

A indígena Maria da Graça destaca que o projeto trouxe mudanças e valorização para os produtos. Ela conta que o método dos seus antepassados não contemplava técnicas de conservação, por isso a borracha não tinha durabilidade. O preço era baixo e só conseguia trocá-la por fumo e alimentos. Com a técnica ensinada pelo professor, hoje a produção tem boa saída, inclusive em outros estados.

“A grande felicidade é poder vender a borracha na porta de casa e por um preço maior. A tecnologia mudou a nossa vida. Meu marido não queria mais cortar seringa, estava desencantado com o trabalho. Agora, a gente consegue ganhar dinheiro suficiente para comprar roupas, panelas e o que mais quiser”.

Com parte da premiação que recebeu da Fundação Banco do Brasil, R$ 50 mil, o professor Samonek conta que foi comprado um carro, utilizado no transporte de técnicos para as unidades de processamento.

“O prêmio trouxe segurança para o fortalecimento da tecnologia, mostrando, com clareza, que o método está à disposição das comunidades para transformar o conhecimento popular em trabalho e renda”, resume.

Segundo o professor, um ano depois da premiação, a tecnologia social está sendo reaplicada em várias comunidades. A estratégia é a implantação de unidades produtivas e pedagógicas, para disseminar a metodologia. A iniciativa é facilmente apropriável, uma vez que não necessita de energia elétrica e exige baixos custos de produção. A intenção é gerar 580 novos postos de trabalho.

O Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social é realizado, a cada dois anos, para certificar e difundir tecnologias sociais - produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade, que representem soluções efetivas de transformação social.

 

 





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