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Treinamento de mídia ajuda cientistas a se comunicar com o público

Data: 10/11/2017 19:01

Por Redação/ ABC

O evento está na sua 5ª edição e contou com o apoio a Academia Brasileira de Ciências (ABC) nos últimos três anos.

A apresentação dos cinco candidatos foi feita numa noite de muita diversão e emoção. Saiba mais na matéria da ABC “Pernambucano vence Euraxess Science Slam Brazil 2017 com paródia do Netflix”.

No dia anterior, porém, os finalistas e mais de 40 pesquisadores inscritos participaram de um treinamento de comunicação na Casa Europa, no centro do Rio de Janeiro. Com várias palestras e atividades práticas, seguidas de um ensaio de cada um avaliado pelos coaches, que deram as últimas orientações aos candidatos, o dia foi intenso e muito proveitoso para todos os participantes. Veja como foi a preparação.

Apresentando o media coaching

A co-coordenadora do Euraxess Science Slam Brasil, Charlotte Grawitz, é especializada em economia internacional e do desenvolvimento. Ela abriu os trabalhos contando sobre sua escolha de sair da França para vir trabalhar na Euraxess Brasil, contribuindo para a mobilidade de pesquisadores interessados em estudar na Europa e realizar seus projetos. “Conhecer bem o conteúdo de um tema de ciência não basta. É preciso saber comunicar o seu conhecimento e é para isso que reunimos alguns especialistas para ajudar nossos finalistas do Science Slam a treinar a integração entre conhecimento científico e comunicação”, destacou a economista.

Improviso e ação

Há 14 anos trabalhando com teatro científico no Museu da Vida, na Fiocruz-RJ, a atriz e roteirista Letícia Guimarães é experiente em lidar com público que não têm o hábito de frequentar aparelhos culturais. Convidando os participantes a formar uma roda e se darem as mãos, ela explicou a proposta da atividade: “Para te escutar com atenção, o público tem que gostar de você. Ao apresentar uma palestra, a pessoa está exposta, é uma posição de risco, porque ela pode agradar ou não. E se o público cria empatia, vai querer ajudar a pessoa. Essa é a ideia”.

A interação envolvendo o toque – dar as mãos – já gera um desconforto. “As mãos suadas incomodam, constrangem. E é isso: vamos sair da nossa zona de conforto e fazer um exercício de exposição.” A partir daí, sob o comando de Letícia o grupo respirou alto, suspirou bem fundo e se colocou em posições ridículas. Foram formados então cinco pares, compostos por um dos finalistas e um voluntário escolhido na hora para dar seguimento à atividade. Leticia propôs alguns filmes bem conhecidos e cada dupla tinha eu escolher um e criar um esquete de um minuto usando os personagens do filme e uma cena característica para explicar a pesquisa do candidato.



O finalista Max Oliveira, doutorando de história da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), escolheu o filme Titanic e encenou com o parceiro a clássica cena em que Rose, a personagem de Kate Winslet, está na proa do barco de braços abertos, com seu parceiro Jack, que no filme era Leonardo Di Caprio, a abraçando por trás.

E Max, representando Rose, conta emocionada(o) ao companheiro sua história: que é de Itaguaí, uma cidade em que a metade das crianças é registrada como preta ou parda, mas cujos documentos oficiais dizem que após a abolição da escravatura, todos os escravos da cidade foram embora. “Mas então, como e por que a metade da cidade é preta ou parda?”, perguntou o intérprete de Rose. E finalizou “Vem, Jack, vem comigo. Vou te levar pra Itaguaí!”

E assim como Max – após muitas gargalhadas -, os outros finalistas encenaram esquetes do Planeta dos Macacos, Matrix e outros filmes blockbusters.

No final, todos sentaram em roda e avaliaram os resultados da atividade. Letícia destacou alguns aspectos importantes. “O apresentador está intimidado com a plateia, preocupado com o acaso e com o ridículo. Não fiquem mais! Façam! Sejam! O ridículo é parte da vida!” Ela observou que a plateia só ri se entende. “E para facilitar esse entendimento o palestrante deve trazer referências conhecidas do mundo real, do ambiente daquelas pessoas que compõem o seu público em cada ocasião”, ressaltou Leticia, completando que elementos da cultua de massa e músicas da moda são ótimas ferramentas para essa aproximação.

“Se você quer se comunicar, tem que estar antenado. Tem que escutar a plateia e responder no escopo daquele universo. Ao mesmo tempo, tem que deixar claro que você está ali se expondo por causa de e para aquelas pessoas. Tem que fazer graça de si mesmo. É o humor garantido, que não vai ferir suscetibilidades”, completou.

A tradução da ciência: que língua eu falo?

A bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), Natália Pasternak, fez estágio de pós-doutorado em microbiologia na mesma instituição. É sócia fundadora do blog de divulgação científica Café na Bancada, que já tem mais de 2.000 seguidores, e diretora no Brasil do festival internacional de divulgação científica Pint of Science.

Natália contou que, trabalhando na bancada de seu laboratório, parava para tomar café e conversar com os colegas, muitas vezes sobre as besteiras a respeito de ciência que eles encontravam nas redes sociais. Refletindo sobre esse assunto, porém, ela e seu grupo caíram em si e perceberam que grande parte da responsabilidade era dos próprios cientistas, que não tinham por hábito explicar o trabalho que faziam. “Se a pessoa não entende como a ciência é feita nem sabe para que serve, não valoriza. E a gente têm que explicar que não existe saúde nem educação sem ciência.”

Ela comentou que durante o pós-doutorado mais difícil que já fez – a maternidade – passou a lidar com uma nova realidade: o grupo de mães do Whatsapp. Ali eram veiculadas as informações mais estapafúrdias envolvendo ciência, inclusive campanha anti-vacinação. Ela decidiu, então, explicar porque aquelas informações não eram confiáveis nem tampouco verídicas. “Elas me excluíram, é claro. Mas eu percebi quão assustadora pode ser a desinformação científica”, brincou. Mas começou a pensar seriamente no assunto. Ela construiu, então, o blog Café na Bancada. “Para um cientista é grande o desafio de fazer divulgação. Nós não fomos treinados para isso. Usamos jargões das nossas áreas todo o tempo e eles não são compreensíveis para ao público. Precisamos treinar a falar para a população de modo geral”, reiterou Pasternak.

A bióloga se referiu ao evento internacional Pint of Science para exemplificar a diferença entre falar num congresso, falar para os pares e falar num bar para o público. “A linguagem é outra. Temos que ter muita atenção a isso”, disse.

Propôs então uma atividade prática, de análise de trechos de revista de divulgação como Pesquisa Fapesp, Ciência Hoje, Super Interessante, Galileu e Scientific American, destacando trechos de entendimento difícil e estimulando o público a sugerir outras maneiras de dizer a mesma coisa. “É preciso trazer o vocabulário e os exemplos para a realidade da pessoa, de modo que todos entendam que a ciência está na sua vida, na sua casa, para que fique claro que cortar nosso financiamento afeta todas as pessoas”, concluiu Natália.

Dragões de Garagem

Os apresentadores do site Dragões de Garagem foram Luciano Queiroz, criador do site, e Luiz Bento, colaborador permanente. Queiroz é biólogo, doutorando e mestre em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), enquanto Bento, biólogo com mestrado e doutorado em ecologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e divulgador de ciência no Museu Ciência e Vida, também é diretor do pré-vestibular social da Fundação Cecierj.

O site contém quadrinhos sobre ciência – as Cientirinhas - e podcasts [arquivos de áudio, tipo rádio] de divulgação científica criado em 2012. “Falamos sobre ciência de forma natural, incentivando o pensamento crítico e a curiosidade dos ouvintes. Procuramos divulgar ciência de forma abrangente e interessante, mostrando a importância desse corpo de conhecimento em nosso dia a dia social e profissional”, disse Luciano. Até aquela data, o Facebook dos Dragões tinha 21.000 seguidores e o canal do You Tube tinha 2.074 inscritos. O alcance dos podcasts chega a mais de 12.000 downloads por episódio.

Luciano diz que é preciso convencer as pessoas de que ciência é interessante e pode ser emocionante. E fazer isso só com áudio, como eles fazem nos podcasts, é difícil. Mas não é impossível. Ele mostrou três modelos de podcast. No primeiro, o locutor lê um texto simples. Mas é uma leitura. No segundo, há três cientistas conversando, sabendo calar quando o outro fala. Bem mais animado. Mas o terceiro era o melhor: o podcast no formato de contação de histórias, mais jornalístico, era um depoimento de uma mulher nordestina contando sobre a gravidez com zika, que causou microcefalia no bebê. Ela relata seus sentimentos, as providências que precisou tomar e o narrador vai complementando as falas dela com informações científicas simples e pertinentes. Muito comovente. E era ciência.

Ele lembrou que o rádio no Brasil foi iniciado pela Academia Brasileira de Ciências, que abrigou uma das primeiras estações do país: a rádio Roquette-Pinto, que era membro da ABC. “Era uma rádio de cultura e ciência, levou ao público palestras de Einstein e Marie Curie”, ressaltou Luiz Bento.

A atividade prática proposta então por Luiz e Luciano dividiu os participantes em cinco grupos, cada um incluindo um dos finalistas. Os grupos receberam textos curtos de revistas de divulgação e tinham 15 minutos para propor um áudio explicando a notícia. Um texto que falava sobre produtividade científica foi abordado por meio da fábula A Cigarra e a Formiga. Outros criaram paródias de músicas conhecidas. Uma festa da criatividade.

Luciano destaca que o podcast é um formato barato de divulgação científica, “que pode ser ouvido no ônibus, lavando louça, em qualquer lugar. Nos EUA é a mídia que mais cresce”, informou.

Forma e conteúdo: menos é mais

Mestre em teoria e crítica do design pela Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ), Paula Schuabb cursou especialização em gestão cultural pela Universidade Cândido Mendes (UCAM), depois da graduação em comunicação social com habilitação em publicidade e propaganda, pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela trabalha como estrategista de conteúdos digitais terceirizada, na Petrobras.

Paula começou a palestra falando de uma pesquisa da Microsoft que demonstrou que a capacidade de concentração do ser humano é menor do que a de um peixe dourado. Por isso, ela escolheu trabalhar com imagens. “Imagem é informação, só que aguça a curiosidade, porque influencia a percepção”, disse. Para falar com um determinado público, segundo ela, é preciso que o apresentador tenha um repertório comum de referências com aquele público. As imagens, segundo Paula, dão leveza à narrativa, criando identificação e empatia. “A maior parte da informação registrada pelo cérebro é visual; imagens são processadas milhares de vezes mais rápido do que o texto”, afirmou.

A designer exemplificou com as palavras VERMELHO escrita na cor amarela. “A tendência é ler AMARELO, porque a cor influencia mais a percepção do que as letras”, explicou. Outro exemplo dado por ela foi o seguinte texto: “Não importa em qual ordem as letras d uma palavra estão. A única coisa importante é que a primeira e a última letra estejam no lugar certo. O resto pode ser uma bagunça total que você ainda pode ler sem problemas.”

Os designers, de acordo com ela, trabalham partir desta noção. “E todo mundo pode pensar como designer”, defendeu Paula. Ela mostrou um slide com algumas palavras soltas. Foi falando sobre cada um dos conceitos e demonstrando em slides. Isto tornou a compreensão, realmente bastante simples.



O pensamento visual, segundo Paula, pode mudar a percepção das pessoas sobre um trabalho. E começa com organizar e priorizar. “O alinhamento, organiza; o agrupamento ajuda a estabelecer relações; o espaçamento confirma que os elementos têm relação; o contraste cria uma hierarquia da informação; e assim por diante”, explicou. Depois são acrescentados os elementos estéticos. “É importante selecionar os conceitos principais e ilustrar estes conceitos. E quebrar o texto de forma a facilitar a leitura. Isso envolve reorganizar, reagrupar o texto em itens, colocar subtítulos.”

Sobre as imagens, Paula Schuabb esclareceu: ela deve ser informativa e significativa, complementar a informação. “A imagem deve contextualizar o que está escrito ou captar a atenção para destacar algo, não para competir”. E quanto aos gráficos? Em seu ponto de vista, em geral eles têm muita informação. Por isso, Paula acha importante enxugar o texto, enxugar as cores, eliminar a informação desnecessária e concentrar naquilo que se quer que a pessoa leve, que registre, que lembre. “Assim você conduz a narrativa visual, define a mensagem residual.” Ela sugeriu a utilização de infográficos. “São um excelente recurso para harmonizar texto e imagem.”

Portanto, cientistas, mãos à obra, vamos limpar e simplificar os slides: menos é mais.

Dicas para ampliar o impacto da comunicação

O ator e executivo de treinamento Tony Correia fez uma palestra estimulante e desafiadora, mostrando na prática como a postura, atitude e forma de usar a linguagem faz diferença numa apresentação. Sua experiência demonstrou que 85% do sucesso de uma palestra reside na capacidade de comunicação.

A linguagem, muitas vezes, é fonte de mal-entendidos. Ele reconhece que muita eloquência, às vezes, pode estar atrelada a um discurso vazio. Mas se o conteúdo é bom, a eloquência só ajuda. “O palestrante precisa demonstrar interesse verdadeiro no seu público, exercitando a empatia, se colocando no lugar da plateia”, ponderou Tony. Ele diz que é importante que o público se dê conta de que você estudou, trabalhou numa apresentação para ele, público. "Isso gera empatia."

Correia listou alguns elementos fundamentais para uma boa comunicação: “Os quatro pilares clássicos são a respiração, o contato visual, a voz e a emoção”, esclareceu. Para exemplificar cada um, abordou a voz, dicção, ênfase, postura, uso do espaço, humor, emoção.

Ele relatou um exercício histórico de voz: “Demóstenes, que foi considerado o melhor orador grego, exercitava seus discursos junto ao mar, até sua voz se sobrepor ao barulho das ondas”, ilustrou. “A palavra certa é importante, mas o tom certo é considerado seis vezes mais importante. Escolha bem a palavra, mas não erre no tom.” Ele exemplificou de forma bem clara, repetindo uma mesma frase de quatro maneiras diferentes: como uma ordem, uma súplica, um convite ou um convite sedutor. “O apresentador tem que ter presença e capacidade de persuasão”.

Sua experiência como ator ajuda um bocado. Tony explicou que para uma boa dicção, é importante trabalhar com os 30 músculos do rosto. “Um bom exercício é procurar falar com pedrinhas na boca. Isso te obriga a explorar a musculatura facial e articular melhor as palavras. Saboreie as palavras. Fale com calma, levando a palavra até a última sílaba bem pronunciada”, disse – e demonstrou. 
A questão da ênfase também foi destacada por Tony Correia com uma frase, que repetiu quatro vezes enfatizando palavras diferentes: “Eu não disse que você pegou o livro da estante.” Acentuou primeiro o EU, depois VOCÊ, em seguida LIVRO e por último ESTANTE. E, realmente, demonstrou que o sentido da frase muda completamente dependendo da ênfase dada a cada palavra. “A modulação da voz é fundamental. Isso envolve o tom, o volume, a dicção, a inflexão, o ritmo, as pausas e os gestos.”

Trabalhando a boa voz e a boa dicção, Tony passou para a postura e ocupação do espaço. “Ao se mover para frente e para trás falando ou virar a cabeça para o slide, de costas para a plateia, o som muda e a compreensão fica difícil”, apontou. A dica é: de pé num determinado lugar, fale parado; ande para onde quer em silêncio e fale novamente parado no outro ponto.

E fechou com um slide bem-humorado: a imagem de um gato se olhando num espelho e se vendo como um leão. “Acredite em si mesmo e na sua capacidade de desenvolver habilidades de comunicação. Comunicar é ‘tornar comum’, ou seja, compartilhar com outros o seu conteúdo. Com empenho e dedicação, o bom resultado vai aparecer.”

Criatividade e recursos audiovisuais

O vencedor do Science Slam 2016 (veja aqui sua apresentação vencedora), André Azevedo da Fonseca, é doutorado em história pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e professor adjunto da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná.

Ele diz que orienta seus alunos a construir apresentações com uma estética limpa. “A mensagem deve ser clara, cada imagem deve corresponder aquilo que você está dizendo. E quanto menos texto, melhor”, destacou.

Em consonância com a fala anterior da designer Paula Schuabb, André destacou que o mais importante é a mensagem. “O centro da mensagem é o conceito. E este pode ser apresentado como imagem. Imagens devem provocar reflexão, mas não devem ser cosméticas. E não podem exceder seu objetivo, atrapalhando a comunicação” Ele recomendou o uso, com comedimento, de gifs e memes. “É a linguagem atual. Resumem muitas ideias num texto curto e uma imagem”. E ainda recomendou boas fontes de imagens gratuitas e de qualidade, que podem ser usadas bastando dar o crédito: os sites Pixabay e Wikimedia Commons.

Assim como Tony Correia, André destacou a importância da empatia. “O palestrante tem que saber quem é o seu público, quais são seus desejos e necessidades”, disse, mostrando slides de comidas apetitosas que provocaram gargalhadas no público, dado que sua apresentação ocorria imediatamente antes do almoço.

Ele ressaltou também a importância da alternância de emoções durante uma apresentação: reflexão, emoção, humor. “ Depois de um momento de alta tensão, o humor adequado e bem colocado provoca relaxamento. Mas tem que ser usado com ética”, salientou.

Resumindo, André Azevedo afirmou: “Tudo que atrapalha a concentração na mensagem é ruim, tudo que ajuda a concentrar é bom. E comece com a parte séria, levando depois para o humor”, concluiu, projetando duas imagens de Einstein, a primeira bastante sério e a célebre foto com a língua de fora. “E vejam meu canal no YouTube!”, encerrou, com força na divulgação. E vale a pena ver. Experimente.


(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)





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