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Revista Brasileira de Tecnologia e Negócios de Petróleo, Gás, Petroquímica, Química Fina e Indústria do Plástico

Dez anos depois da quebra do Lehman Brothers — lições e desafios

Data: 20/09/2018 19:43

A crise financeira global permanece como um dos eventos definidores de nosso tempo. Marcará para sempre a geração que a presenciou. As consequências da crise — os pesados ​​custos econômicos suportados pelas pessoas comuns, combinados com a raiva de ver bancos socorridos e banqueiros desfrutando da impunidade, em um momento em que os salários reais continuaram estagnados — estão entre os fatores-chave para explicar a reação contra a globalização, particularmente nas economias avançadas, e a erosão da confiança no governo e em outras instituições.

Nesse sentido, a crise projetou uma longa sombra, que não mostra sinais de desaparecer tão cedo. No entanto, o décimo aniversário do colapso do banco Lehman Brothers — o que uma vez chamei de momento “vaca sagrada” — nos dá a oportunidade de avaliar a resposta à crise na última década.

O colapso do Lehman Brothers provocou uma corrida mais ampla no sistema financeiro, levando a uma crise sistêmica. Ao todo, 24 países foram vítimas de crises bancárias, e a atividade econômica ainda não retornou à tendência na maioria deles. Um estudo sugere que um norte-americano médio perderá 70 mil dólares de sua renda durante toda a vida por causa da crise. Os governos também continuam a sentir o aperto. A dívida pública nas economias avançadas aumentou mais de 30 pontos percentuais em relação ao PIB — em parte devido à fraqueza econômica, em parte devido aos esforços para estimular a economia, e em parte devido ao resgate dos bancos em dificuldades.

Olhando para trás agora, os pontos de pressão parecem óbvios. Mas eles eram menos óbvios na época. A maioria dos economistas não conseguiu prever o que estava por vir. É uma lição sobre o pensamento único.

Quais foram esses pontos de pressão? No centro, estava a inovação financeira que superou amplamente a regulamentação e a supervisão. Instituições financeiras — particularmente nos Estados Unidos e na Europa — entraram em um frenesi de riscos imprudentes. Isso incluiu depender menos dos depósitos tradicionais e mais do financiamento de curto prazo, reduzindo drasticamente os critérios para a concessão de crédito, retirando empréstimos dos balanços patrimoniais através de securitizações obscuras e, mais genericamente, transferindo a atividade para os cantos obscuros do setor financeiro, sujeitos a menos supervisão regulatória. Por exemplo, a participação de mercado das hipotecas “subprime” nos EUA chegou a 40% do total de títulos lastreados em hipotecas em 2006 — frente a quase nada no início dos anos 1990.

Por sua vez, a crescente globalização dos serviços bancários e financeiros fez com que a crise gerasse um efeito cascata rápido e perigoso. Os bancos europeus eram grandes compradores de títulos norte-americanos lastreados em hipotecas. Ao mesmo tempo, a introdução do euro levou a grandes fluxos de capital para a periferia, à medida que os custos dos empréstimos caíram. Esses fluxos foram principalmente financiados pelos bancos — outro canal de contágio financeiro. A globalização também contribuiu com o problema por meio de arbitragem regulatória — as instituições financeiras conseguiram supervisão mais leve a partir de sua capacidade de se transferir para jurisdições mais favoráveis.

Se a resposta política a esses riscos anteriores à crise foi inadequada, eu diria que a resposta política imediata à crise foi impressionante. Os governos das principais economias representadas pelo G20 coordenaram políticas em escala global. Os países com problemas bancários limitaram o impacto da turbulência do setor financeiro na economia real — por meio de medidas como apoio de capital, garantias de dívida e compras de ativos. Os bancos centrais reduziram as taxas de juros e posteriormente navegaram profundamente em mares desconhecidos com política monetária não convencional. Os governos sustentaram a demanda com grandes estímulos fiscais.

O FMI também desempenhou seu papel. Mobilizamos os países-membros para expandir nossos recursos financeiros drasticamente e, como resultado, conseguimos comprometer quase 500 bilhões de dólares para países afetados pela crise. Também injetamos inéditos 250 bilhões de dólares de liquidez global no sistema. Modernizamos nossas estruturas de empréstimos para permitir uma resposta mais rápida e flexível às necessidades dos países, inclusive passando a taxas de juros zero em empréstimos a nações de baixa renda. E nos empenhamos em repensar seriamente a macroeconomia, para entender melhor o que deixamos passar, incluindo as complexas ligações entre o setor financeiro e a economia real.

Juntas, essas políticas — no contexto da ação coletiva internacional — funcionaram em grande parte no sentido de que o pior cenário foi evitado. Isso não era uma certeza — logo depois do Lehman, estávamos realmente encarando o abismo. Vaca sagrada, de fato…

As políticas também abordaram os erros que levaram à crise. Os bancos têm posições de capital e liquidez muito mais saudáveis. As entidades extra-patrimoniais foram reduzidas e colocadas sob o guarda-chuva regulador. Os grandes bancos enfrentam regulamentações mais rígidas e a alavancagem é menor. A originação de hipotecas “subprime” praticamente desapareceu. Uma grande fatia de derivativos de balcão foi transferida para a compensação central.

Tudo isso é bom, mas ainda não é bom o suficiente. Muitos bancos, especialmente na Europa, continuam fracos. O capital bancário provavelmente deve subir ainda mais. “Grande demais para quebrar” continua sendo um problema, à medida que os bancos crescem em tamanho e complexidade. Ainda não houve progresso suficiente sobre como resolver o problema de bancos em dificuldades, especialmente através das fronteiras. Muitas das atividades mais obscuras estão se movendo em direção ao setor bancário paralelo. Além disso, as inovações financeiras contínuas — inclusive de transações de alta frequência e as fintech — aumentam os desafios da estabilidade financeira. Além disso, e talvez o mais preocupante de tudo, os formuladores de políticas estão enfrentando uma pressão substancial da indústria para reverter os regulamentos pós-crise.

Há uma outra área importante que não mudou muito — a área de cultura, valores e ética. Como já observei antes, o setor financeiro ainda coloca o lucro à frente da prudência de longo prazo, a visão de curto prazo acima da sustentabilidade. Basta pensar nos muitos escândalos financeiros desde o Lehman. A ética não é importante apenas por si mesma, mas porque os lapsos éticos têm consequências econômicas claras. Boa regulamentação e supervisão podem fazer muito, mas não tudo. Elas devem ser complementadas por reformas dentro das instituições financeiras.

Neste contexto, um ingrediente-chave da reforma seria uma maior liderança feminina nas finanças. Digo isso por duas razões. Primeiro, uma maior diversidade sempre aguça o pensamento, reduz o potencial de pensamento único. Segundo, essa diversidade também leva a mais prudência, com menos decisões irresponsáveis que provocaram a crise. Nossas próprias pesquisas confirmam isso — uma parcela maior de mulheres nos Conselhos de bancos e agências de supervisão financeira está associada a uma maior estabilidade. Como já disse muitas vezes, se fosse o Lehman Sisters em vez do Lehman Brothers, o mundo poderia ser muito diferente hoje.

Então, onde ficamos no décimo aniversário do colapso do Lehman? O resultado final é o seguinte: percorremos um longo caminho, mas não o suficiente. O sistema é mais seguro, mas não seguro o suficiente. O crescimento se recuperou, mas não é compartilhado o suficiente.

Para complicar as coisas, o cenário da economia política mudou, com um enfraquecimento do compromisso com a cooperação internacional — ironicamente, o próprio tipo de cooperação que impediu a crise de se tornar outra Grande Depressão. Pense no papel desempenhado por G20, Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês), FMI e outros que trabalharam tão bem juntos na última década. De fato, a importância da cooperação internacional para enfrentar os desafios do século 21 é uma das lições duradouras da crise.

Estamos agora diante de novas linhas de falha pós-crise — da possível reversão da regulamentação financeira, às conseqüências da excessiva desigualdade, ao protecionismo e políticas voltadas para dentro, ao aumento dos desequilíbrios globais. A maneira como reagimos a esses desafios determinará se internalizamos completamente as lições do Lehman. Nesse sentido, o verdadeiro legado da crise não pode ser adequadamente avaliado após dez anos — porque ainda está sendo escrito.

Christine Lagarde é Diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI)

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